A postagem de hoje não é exatamente sobre a Alemanha, porém está relacionada a triste parte negra da história alemã (holocausto). Trata-se de minha visita ao anexo secreto (a famosa casa de Anne Frank).
A história da família Frank é mundialmente conhecida, por isso não irei escrever sobre o assunto (é só pesquisar na internet). Aqui irei relatar como foi visitar o anexo secreto em Amsterdã.
Fiz essa visita com um amigo no dia 21 de março de 2015. O ingresso custou € 9,00. Fomos pela parte da manhã. Antes tivemos que enfrentar uma fila enorme. A fila já fazia uma curva por trás da Westerkerk.
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| Eu alí na fila (de casaco azul). |
O centro de Amsterdã ainda mantém a arquitetura da época da segunda guerra. Os edifícios são estreitos na frente, mas compridos em extensão. As janelas são grandes, como pode ser visto na foto abaixo. Nessa foto, já estávamos na esquina do quarteirão onde fica o prédio que agora é a "Casa da Anne Frank". Passamos quase 3 horas na fila.
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| Fila para a visita ao anexo secreto. |
O prédio que abriga o anexo secreto fica perto de uma igreja. É a Westerkerk que é citada algumas vezes no diário de Anne Frank. Ela conta que gostava de ouvir o som dos sinos da Westerkerk, assim ela sempre sabia das horas.
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O prédio que abriga o anexo secreto é esse da esquerda. Aquela torre é a igreja Westerkerk que é citada no diário de Anne Frank.
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| Torre da Westerkerk. |
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| O endereço da casa de Anne Frank é: Prinsengracht, 263, bem no centro da cidade. Nessa foto, do lado direito da porta tem o nome "Anne Frank huis" (casa de Anne Frank) e do lado esquerdo o número do edifício (263). Apesar de essa ter sido a porta de acesso ao escritório do negócio de Otton Frank, não é por ela que se entra para visitar a casa de Anne Frank, |
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| Esse sou eu do lado direito da porta de entrada. |
Antes de entrar na casa de Anne Frank, a gente recebe um guia explicativo com um mapa do prédio. Ele está em vários idiomas. Escolhi a versão em inglês. Há também equipamentos de escuta em vários idiomas que se pode alugar.
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| Guia impresso que recebemos ao visitar a casa de Anne Frank. |
No guia, logo na primeira página, há um mapa mostrando todo o circuito da visita ao prédio. Vou relatar como foi a visita indicando por um número entre parênteses o local onde se encontra determinado cômodo conforme marcado nesse mapa. Durante a visita, todos os visitantes devem percorrer os cômodos em fila única e sem para por muito tempo, pois é muita gente para visitar. A entrada é pelo prédio da esquina na rua Prinsengracht (1). Depois de comprarmos os ingressos, passamos pela sala de boas vindas (2). Lá há banheiros e balcão de informações.
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| Mapa do curcuito da visita a casa de Anne Frank. |
Como pode ser visto pelo mapa acima, tanto a entrada como a saída da visita a casa de Anne Frank é pelo prédio da esquina e não pelo prédio que realmente abrigou o anexo secreto. A visita começa pelo armazem que fica no térreo (3). Era esse o local onde os funcionários do prédio trabalhavam. Logo depois subimos uma escada e chegamos aos escritórios (4). Era aqui onde trabalhavam os ajudantes da família Frank. Há documentos da época em exposição, como o documento que foi usado para mudar a firma de nome para despistar os Nazistas. A firma teve o nome mudado para Gies & Co. Antes era Pectacon. O negócio tinha dois nomes: Pectacon e Opekta. Cada parte do negócio tinha uma função. O negócio também foi transferido para o Victor Kugler (um dos ajudantes da família Frank), pois os judeus não podiam ter negócios em seu nome.
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| Documento de transferência dos negócios de Otton Frank para Victor Kugler, assim como a mudança do nome da firma para Gies & Co. |
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| Zoom no letreiro explicativo do documento de transferência. Pode-se ler em holandês ou inglês. |
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| Outros documentos do escritório em exposição assim como uma máquina de datilografia usada na época. |
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| Fotos da família Frank em exposição. Ainda não é no interior do anexo secreto. |
Depois vem a despensa (5) e logo em seguida a passagem secreta para o anexo secreto (6). A visita propriamente dita ao anexo secreto começa quando se passa pela passagem secreta (aquela escondida pela estante de livros). Conseguimos fazer algumas fotos (escondido pois não é permitido).
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| Passando pela estante que escondia a passagem para o anexo secreto. |
Ao passar pela passagem secreta, começa o circuito pelos cômodos da família Frank. O quarto dos pais da Anne (7), o quarto da Anne Frank (8) que mais tarde ela compartilha com o Dussel. No quarto de Anne Frank, ainda é possível encontrar as fotos de celebridades da época que ela grudava na parede para quebrar a monotonia. O lugar não tem janelas nas lateriais. Não há mais os móveis, somente os compartimentos. Após a prisão e deportação dos ocupantes do anexo secreto, os nazistas esvaziaram o local retirando todos os móveis.
Muita gente pensa que a família Frank e agregados se esconderam em um sótão. Isso não é verdade. O anexo secreto não era um sótão e sim um prédio por detrás da firma de Otton Frank. O prédio tinha 3 andares como pode ser visto no mapa. O anexo secreto correspondia ao 2° e 3° andares além de um sótão onde eles usavam para guardar mantimentos. A foto abaixo mostra a escada que dá acesso ao sótão. No dia de minha visita, havia uma camada de vidro bloqueando o acesso ao sótão, por isso não pudemos visitá-lo. Aliás, a visita ao anexo secreto não inclui o sótão, como pode ser visto no mapa do circuito. No filme
a culpa é das estrelas, quando o casal protagonista visita o anexo secreto, eles aparecem visitando também o sótão. Com certeza a visita do sótão foi cedida para o filme só para divulgar mais o lugar, mas a verdade é que nós, visitantes comuns, não podemos ter acesso ao sótão (e eu não sei o motivo). O sótão é descrito no diário de Anne Frank como o local onde ela gostava de ficar com o Peter. E por falar nele, abaixo da escada que dava acesso ao sótão ficava o quarto do jovem.
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| Escada que dava acesso ao sótão. Abaixo dela era o quarto de Peter. |
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| Esse não é o diário de Anne Frank. É apenas um manuscrito da época. |
Ao sairmos do compartimento que era o quarto de Peter (11), passamos para a parte da frente do prédio e saimos pela lateral para o prédio ao lado (já não estamos mais no prédio que abriga o anexo secreto. O diário original está exposto no 2° andar do prédio onde se compra o ingresso de acesso (15). O diário está aberto em uma página onde Anne Frank colou algumas fotos suas. Não é permitido tirar fotos dele (e nem meu amigo se atreveu). Pegamos uma imagem da internet somente para efeito de ilustracão, pois é exatamente como na foto abaixo que ele se encontra exposto. Pela foto dá pra perceber que o diário dela não era espesso.
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| Diário original. Foto de divulgação. |
Ainda há um local (local de exibição) com vídeos falando sobre a família Frank (16). Há também o museum cafe (17) para quem quiser fazer uma pausa para um lanche. Há também uma loja de livros (18) onde se pode comprar o livro o diário de Anne Frank em vários idiomas, além de lembrancinhas. Há, inclusive, o modelo do diário de Anne Frank à venda (com as folhas em branco), caso alguém queira comprar o mesmo modelo de diário que ela teve. A porta de saída fica na esquina da Prinsengracht com a Westermarkt (19).
Curiosidades sobre o diário de Anne Frank:
Apesar de Anne ter nascido na Alemanha, o diário foi escrito em holanês, pois boa parte de sua vida escolar foi na Holanda. A versão que temos em português vem da versão traduzida para o alemão, ou seja, holandês - alemão - outros idiomas. Na Alemanha, comprei a versão em alemão do diário de Anne Frank em Chemnitz.
Na versão em português, na página onde ela conta um pouco sobre as colegas de classe, alguns nomes são substituidos por siglas. A amiga Nanette Blitz Konig, uma das poucas amigas de Anne ainda viva, aparece no diário como E.S. Já na versão em alemão, o nome dela aparece de verdade como Nannie Blitz. Certa vez em uma entrevista, Nanette disse que não havia autorizado o uso de seu nome na publicação do diário, por isso que na versão em português, seu nome tinha sido substituido pela sigla E.S. Então por que o nome dela aparece na versão em alemão????
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| Versão em alemão do diário de Anne Frank. |
Para quem não sabe, o diário de Anne Frank não era espesso, ou seja, tinha poucas páginas. Quando as páginas de seu diário acabaram, ela passou a escrever em cadernos e folhas de papel ofício (conhecidos como so manuscritos de Anne). Essas folhas também estão expostas na parte onde o diário está exposto (15). Há também um livro com o nome de todos os judeus vítimas do holocausto. Esse livro está aberto bem na página onde se pode ler o nome da família Frank (eu consegui achar o nome da Anne).
No início, Anne Frank escrevia seu diário somente para si. Em um dado momento (1944), ela escuta no rádio que o ministro da educação da Holanda (em exílio), pede para que todos que tiverem escrito diários e cartas durante a segunda guerra mundial, guardem esse material para serem publicados posteriormente como um legado. Então Anne passa a revisar o próprio diário fazendo cortes e acrescentando outras partes (isso pode inclusive ser visto na versão livro do diário, pois ele também traz esses acréscimos). Ela muda o nome dos personagens (a versão livro traz essa lista de nomes e suas mudanças). Após a guerra, ela queria escrever um romance intitulado o anexo secreto. O diário serviria como base para o livro. E se ela pudesse "reviver", será que ela ficaria feliz em ver que seu diário foi publicado na integra sem nenhum corte?
Teorias da conspiracão dizem que Otton Frank teria forjado algumas páginas do diário da filha para deixar a história mais emocionante e vender mais livros. Independente de isso ser verdade ou não, o diário da filha existiu de verdade.
Miep Gies foi a grande salvadora do diário. Após a prisão dos ocupantes do anexo secreto, ela e Bep foram até o local e encontraram o diário, os cadernos e os papeis avulços de Anne jogados no chão. Miep guardou os manuscritos de Anne na gaveta de sua escrivanhinha com a intenção de entregá-los a Anne quando ela voltasse. Em um curto espaço de tempo os nazistas voltaram ao anexo secreto para esvaziá-lo (levaram tudo e até hoje ele permanece vazio). Ainda bem que Miep foi rápida. Imaginem se no lugar de Miep, os nazistas tivessem encontrado o diário. Com certeza eles o teriam queimado e a história da família Frank seria só mais uma entre uma multidão.
No diário original, Anne colou algumas fotos suas e de sua família. Ela até comenta essas fotos. Na versão do diário em livro, essa parte foi retirada. As fotos que aparecem na versão livro são somente para ilustração.
Anne Frank não foi a única a escrever diário durante a segunda guerra mundial. Lena Mukhina, uma adolescente de 16 anos, também escreveu um diário durante o cerco de Leningrado. A obra também virou livro. Outras pessoas também escreveram diários nessa época, porém o da Anne Frank é o mais famoso.
Esse ano (2016), em comemoração aos 70 anos do fim da segunda guerra mundial, foi publicado uma edição especial do diário de Anne Frank cuja capa acolchoada imita o diário original.
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| Versão 2016. Foto de divulgação. |
Em 2015 foi publicado um livro chamado Os últimos sete meses de Anne Frank, de Willy Lindwer. Trata-se do relatos de 6 mulheres sobreviventes do holocausto que se encontraram com as irmãs Frank nos campos de concentração. Para quem já leu o diário, esse livro é um complemento da triste história de Anne Frank.
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| Livro que encerra a história não contada no diário. Foto de divulgação. |
A experiência foi incrível. Ao andarmos pelos cômodos do anexo secreto, a gente fica imaginando o quanto foi difícil para aquelas pessoas se esconderem por tanto tempo, principalmente para uma adolescente de 13 anos. Espero voltar lá um dia.
Obs: Com excessão das fotos de divulgação, todas as outras fotos pertencem a esse blog. Caso alguém queira usar as fotos em alguma publicação, favor não esqueça de nos dar os créditos.